sábado, maio 07, 2016

Saídos da prateleira

Hoje vou estar em Évora para apresentar o trabalho que tenho desenvolvido nos últimos anos sobre o espiritual no desenho.

Quando se tem muito para dizer e desenhos para mostrar, há que procurar a sabedoria de escolher as palavras certas para transmitir o que é verdadeiramente importante.
Dividi a apresentação em quatro partes: uma mais teórica e depois exemplos de três exercícios, respectivos enunciados e conclusões.


Fui à prateleira dos cadernos para escolher os certos para mostrar.
Saíram da escuridão estes desenhos de Turim, feitos em 2015. 
O Santuário da Consolata foi onde o P. José Allamano foi reitor e onde percebeu que tinha de fundar os Missionários da Consolata. Grande e santo homem!


Turim é uma cidade onde não me importava de viver durante uma temporada.
Acredito mesmo que um dia isso acabará por acontecer...

sexta-feira, maio 06, 2016

Lagoa do Fogo


Chovia muito
e o vento era exagerado.
O nevoeiro rodeava-nos como que a brincar
e a fazer imperar o seu arrepio na espinha.

Se aspirar às coisas do alto,
É assim tão intempestivo,
Só dá para lá ir espreitar
E guardar o vislumbre.


quinta-feira, maio 05, 2016

Ligar o céu e a terra


Ligar o céu e a terra no mesmo desenho.
Dito assim, e sendo o título de um exercício, o mais óbvio seria desenhar a terra e o céu...
Mas não, o que liga o céu só podem ser as pessoas e não a linha do horizonte...
Entre os vários textos de apoio estava este:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos

Depois de desenhar o Sr. Manuel da Cunha, no mesmo banco, a apanhar Sol, estavam estes homens todos. Foi um fartote de ligações entre o céu e a terra, entre todos os sonhos do mundo... que nada significavam, mas que tudo significavam...

quarta-feira, maio 04, 2016

"Rusto" de Cão - S. Roque


- Aquiê Ruste d'cã - Sã Roque
- Como?
- Ruste d'cã - Sã Roque
- Pensava que era apenas São Roque...
- Nã, Ruste d'cã - Sã Roque.

Escrevi o melhor que consegui do que percebi: Rusto de Cão - S. Roque.
Mais tarde, em conversa com a Alexandra Baptista, percebi que deveria ter escrito "Rosto de Cão - S. Roque"!! Claro, agora faz sentido, mas na altura não conseguia transformar o som ûûû num ó. Esta pronúncia açoreana é difícil...

Parece que havia ali uma rocha no mar que, vista de determinado ângulo, fazia lembrar o rosto de um cão. Entretanto parte da rocha desfez-se e já não lembra o fiel amigo de quatro patas. Ficou o nome...

Nesse dia estive à conversa com o Sr. Manuel da Cunha. Trabalhou 32 anos na marinha mercante. Passava mais tempo no mar do que em terra. Hoje está reformado e não tem saudades do tempo do mar. Veste-se de preto. É uma simpatia e de conversa fácil.

terça-feira, maio 03, 2016

26 de março

Tenho tido a sorte do meu aniversário calhar quase sempre quando estou a viajar.
Também tenho a sorte do meu aniversário ser no mesmo dia dos USk Portugal. Tudo começou em 2009, já lá vão 7 anos e tanta coisa mudou. Basta ver a dinâmica do grupo. Nunca imaginei, quando eu e o Eduardo transformámos o blogue de um workshop nos Urban Sketchers Portugal, que iam ser o que são hoje. Há muitos detalhes que ainda estão ocultos. Horas passadas a fio um com o outro a pensar coisas em grande para o grupo. A organização do Simpósio em 2011 e a mudança agora para outras lideranças. Enfim, um dia, quando for velhinho, lá colocarei tudo em papel...


Este ano, a 26 de março, estava em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, Açores.
O tema era o do 3º dia. As diferenças entre o 1º, o 2º e o 3º dias, e como o desenho podia mostrar essas três camadas de entendimento: confusão, maturação, entendimento.


No texto que o P. Nuno Branco nos entregou, estava esta frase: "o 3º dia é mais do que uma data". 
Eu, a pensar no meu aniversário, sentia isto mesmo. A minha vida é mais do que uma data... ou um espaço temporal entre datas...


Dia 26 de março foi o dia da Vigília Pascal. 
Optei por desenhar durante as leituras, que foram 5, e escrever o refrão do Salmo enquanto era cantado. Na Vigília celebra-se a ressurreição. Não é uma vida nova, é mesmo a ressurreição. Tão difícil de entender que só se pode mesmo confiar que a nossa vida está carregada de sentido e que não estamos cá por acaso. Eu acredito nisso mesmo.

segunda-feira, maio 02, 2016

S. Miguel


Não sei bem o que escrever sobre este desenho.
Parte foi feita na lagoa das sete cidades. 
Outra parte foi feita na marina de Ponta Delgada.
Tudo inacabado...

domingo, maio 01, 2016

Via sacra no Livramento, Açores


Na sexta feira santa, aquela mesmo que antecede o domingo de Páscoa, costuma caracterizar-se pela realização de uma via sacra em cada terra que tem uma paróquia.
Nos Açores, durante o retiro e depois de jantar, lá fomos nós para a as ruas da freguesia do Livramento para participar/desenhar a via sacra.

Era escuro e tudo acontecia muito rápido. Os jovens tinham as estações muito bem preparadas e, curiosamente, parava-se em locais perfeitamente banais - entrada de uma garagem, passeio da estrada, janela de uma casa - onde cada família tinha preparado um pequeno nicho sobre o tema de cada estação.

Fui desenhando o mais rápido que podia. Entre caminhadas, músicas, perguntas, olhares, esta foi, provavelmente, uma via sacra de que nunca mais me vou esquecer...

sexta-feira, abril 29, 2016

Retiro dos Açores - o início

Não costumo publicar os desenhos resultantes do retiro de diários gráficos e, quando o faço, escolho sempre apenas um ou dois. Desta vez, contudo, está-me mesmo a apetecer. Não sei se é porque o de Marrocos está aí mesmo à porta, mas a verdade é que não quero que fique tudo guardado na prateleira aqui de casa...



O primeiro exercício é sempre uma apresentação desenhada. O P. Nuno Branco sj, pegou num texto do profeta Isaías em que ele refletia sobre o seu destino e lançava esta pergunta bombástica: "quem meditou no seu destino?", referindo-se a ele próprio.
Fiz na mesma dupla página aquilo que sinto que me caracteriza neste momento: a rapidez de execução e a eficácia na resolução de milhares de tarefas que tenho sempre em mãos, mas também a calma e paciência que dedico a cada coisa que quero fazer sem ter nenhum critério especial, só porque sim. Daí desenhar calmamente uma pedra, procurando o rigor, o detalhe, a análise eficaz, por cima de um tema arquitectónico banal...


Depois peguei no aparo e no frasco de tinta da china para me lançar numa técnica nova, algo que acredito que também me caracteriza: gosto de me aventurar por coisas novas, sem medos nem receios, ainda que isso implique ir para o outro lado do mundo, ou casar com alguém que nasceu lá desse lado! :)


Este exercício terminava com um último desenho acompanhado de uma frase que nos tentasse definir em três características. Escrevi simples, dedicado e aprendiz. Sei que o sou e tinha de o escrever.

quinta-feira, abril 28, 2016

O bosque de La Tourette


Último desenho de La Tourette. Mais um em folha solta. Mais um para oferecer...
Todos os anos fazemos o amigo secreto. Oferecemos e recebemos um desenho de alguém do grupo. Este ano, desafiámos o 12.º ano a preparar a dinâmica do amigo secreto. Entregaram-nos umas folhas que, na parte de trás, tinham duas cores, sendo essas as únicas que podíamos depois usar para fazer o desenho. A mim calhou-me o preto e o amarelo.

Guardo sempre com muito cuidado estes desenhos que recebo. Tenho a impressão que alguns destes meus alunos vão ser alguém importante um dia...

Quando estava no meio do bosque de La Tourette, à procura do meu habitáculo, dei-me conta que seria ali o local perfeito para fazer um desenho inesperado para oferecer. 
Calhou-me como amiga a Rita Barata, uma aluna que escolheu Humanidades no 10.º ano, mas que mudou para Artes no início do 2º período. E ainda bem que mudou. Movimenta-se em Artes como peixe na água. Comunica o seu trabalho como ninguém. Apaixona-se por tudo o que lhe é pedido. Procura sempre fazer mais e ir muito mais longe do que os desafios que lhe são colocados.
São alunos como ela que me obrigam a ser melhor professor. Obrigam porque senão não estou à altura...

Fiz-lhe este desenho de propósito. Escrevi na parte de trás que é um desenho inesperado porque a Arte é assim mesmo: misteriosa. 
Queria que ela tivesse um desenho meu que fosse raro, pouco evidente, fora do habitual. Porque é isso que ela é: rara!

quarta-feira, abril 27, 2016

Esbarrar com a realidade


Este é o meu penúltimo desenho feito em la Tourette.
Não foi o penúltimo desenho feito lá, mas é o segundo a contar do fim a ser aqui publicado.

O tema do exercício era o 3º dia e baseava-se em dois textos. Um do P. Vasco Pinto de Magalhães, sj e outro do profeta Jonas que já tinha utilizado no retiro de diários gráficos na Sicília.

Não me querendo alongar muito sobre as relações entre textos, até porque poderiam ficar fora de contexto, transcrevo apenas algumas partes do P. Vasco:


Diante de um acontecimento qualquer, e particularmente de um acontecimento doloroso, há um primeiro tempo de confusão, de conflito, de choque, de esbarrar com a realidade, é o “primeiro dia”.

Há depois um “segundo dia”, um segundo tempo de interiorização, de reflexão, de “metabolização” desse acontecimento.

Virá, então, um terceiro tempo e momento, o “terceiro dia”, quando começamos a ver as coisas com outros olhos.

Creio que foi o que me aconteceu em La Tourette. O terceiro dia metafórico foi no meu segundo dia com as Laudes da manhã. Comecei a ver tudo com outros olhos...