quinta-feira, julho 13, 2017

Florence: Duomo


Tenho-me sentido esmagado por várias coisas, ultimamente. 
Burocracia.
Pessoas talentosas.
Cidades maravilhosas.
Arquitectura. Design. Desenho. Filmes.
Pensadores.

Sinto que tudo o que me rodeia é incrível. Cada esquina ou detalhe, até aqueles que ninguém repara. Parece que estamos a atingir um ponto de qualidade tal que não deixa antecipar o que aí vem...

Mas cada vez me sinto mais esmagado pela história da humanidade. O nosso passado. As raízes...
Estar num lugar destes com mais de 500 anos e sentir que já foi pisado e observado por gerações atrás de gerações coloca-me no devido lugar. Remete-me para a minha pequenez e dá-me uma lição de humildade...

Sentei-me e pus-me a desenhar.
Qual David perante Golias.
Qual formiga perante o elefante.
Qual desconhecido perante a cúpula do Brunelleschi.

E levei um murro no estômago. E fui ao tapete...

segunda-feira, julho 10, 2017

Florence: La Specola


O Museu de História Natural de Florença era uma das prioridades na nossa estadia na cidade.
Criado em 1775, foi um dos primeiros do género a abrir na Europa. 
Sabíamos que não estaria muito cheio, pois a massa de turistas dirige-se a 3 centros incontornáveis: Duomo, Uffizi e Accademia. 

É engraçado como na escola, a ciência e os estudos da biologia e geologia ganham tanto protagonismo sobre todas as outras disciplinas. Depois, numa cidade como Florença (e em tantas outras), o museu de história natural está deserto quando comparado com os de Arte.

A minha opção, enquanto desenhava, era escolher alguns dos animais mais estranhos e raros, um por sala. No final, já com o Matias a dormir, sentei-me no chão e desenhei os armários ao fundo.
Deu corpo ao todo. 
Somos assim, precisamos de prateleiras para arrumar assuntos.
Às vezes teimamos em deixá-los lá arrumados, mesmo quando é urgente tirar tudo cá para fora!

sábado, julho 01, 2017

Florence: Palazzo Vecchio



Filas e filas de pessoas esperam a sua vez para entrar nas Galerias Uffizi. 
A observar essa multidão de gente a querer ver arte em abundância, sobretudo da Idade Média e do Renascimento, estão estas esculturas de homenagem aos grandes mestres que trabalharam em Florença. Que loucura deve ter sido viver nessa época. 
Mas pergunto-me, não é também uma agitação viver nesta? 
A História da Humanidade esmaga-me...


A minha querida professora de História da Arte da FBAUL, Maria João Ortigão, disse uma vez na aula algo que nunca mais me esqueci:
No Renascimento, Florença era uma das cidades mais perigosas da Europa. Haviam muitos crimes na rua. Os Médici construíram passagens secretas para correrem menos riscos de vida. E onde estavam os maiores artistas da época (e mais tarde, do mundo)? Ali mesmo! O risco é o que nos dá um lugar na História.

E depois foi mais longe:
O que nos deixou Florença com todo o seu perigo? O Renascimento e um berço de artistas que revolucionaram a Arte
O que nos deixou a Suíça com a sua posição sempre isenta? Chocolates e canivetes.

Não tenho nada contra a Suíça, como é óbvio, mas acho a comparação muito conseguida!
Neste desenho do Palazzo Vecchio, revivi as suas palavras sobre uma Florença cheia de arte nas ruas, onde a cidade museu se impunha com orgulho.

Tenho saudades das aulas dela.
Tenho também saudades de estudar e de aprender com os grandes professores.

quarta-feira, junho 28, 2017

Florence: Piazza della S.S. Annunziata


O desejo de ir a Florença era muito antigo, mas desde há muito que não sabia quando seria essa viagem.
Este ano, quase por milagre, conseguimos tratar da logística necessária para, depois do retiro em Assis, irmos descansar para Florença.

Esta praça é uma das mais bonitas da cidade. Estudada por todos os amantes da arquitectura. Os motivos de interesse são tantos que me foquei na escultura equestre do mestre Giambologna (João de Bologna, embora nascido na Flandres), um dos maiores representantes do Maneirismo.

O Matias estava na cadeirinha.
Tirámos o caderno dele e os lápis.
Durante 20 minutos desenhámos os três.
Depois, quando eu já tinha o desenho da escultura do Medici Fernando I feito, fui passear com o Matias, enquanto a Ketta terminava o dela.
Depois, trocámos de papel e dediquei-me ao casario com a cúpula da Duomo ao fundo.
Desenho feito a dois tempos e em pé.

Começa assim a minha viagem por Florença: a dois tempos. Vivo este agora, em frente ao computador dois meses depois, mas revivo cada desenho feito lá com mais sumo. Como que com uma visão do cimo do cavalo, lá de cima, mais arejada e a um ritmo que não é humano, mas animalesco, seja a galope, trote ou outro.

Mas acho que desenhar em Florença me deixa a galope...

sábado, junho 17, 2017

Assis: ícones medievais

O Retiro de diários gráficos em Assis começou com a cópia de um ícone medieval:


A arte aprende-se pouco a pouco e parte por parte. Para a arte da pintura é fundamental a composição das cores, depois a atenção à sua mistura. Preocupa-te com isso e sê exacto até aos limites extremos, para que aquilo que pintares seja livremente ornamentado e espontaneamente criado. Depois, a prática da arte ser-te-á facilitada pela experiência de muitos artífices de talento.
Tratadística Medieval - Padre Teófilo (séc. XII)

Na Idade Média, a preocupação do pintor era a construção das cores e a sua composição. O desenho quase não é alvo de pensamento - ele aprende-se com a experiência, isto é, com a prática.
A imagem criada obedecia a regras geométricas específicas. Só a cor é que tinha mais liberdade. Era mais importante o que ela representava do que a sua forma. Mais importante que representar um Cristo próximo dos traços faciais que ele teria tido (tarefa mesmo impossível), era ter um "protótipo do que a imagem representa".
Engraçado como, tantos séculos depois, tudo isto continua a fazer sentido...


No último dia do Retiro de diários gráficos, fizemos outra cópia, mas agora da única representação feita em vida (e ao vivo, por observação) de São Francisco, identificado apenas como Fr Franciscvs:


Trata-se de um fresco, pintado no interior do Mosteiro Beneditino de Subiaco (perto de Roma), antes de 1224. Francisco foi duas vezes a Roma, pelo que faz bastante sentido que possa ter ficado hospedado neste mosteiro, tendo sido pintado por um dos monges beneditinos. 

No séc. XIII, as regras da Pintura na Idade Média ainda estavam bem definidas, mas aqui, a geometria circular dos ícones não existe. O original tem bastante cor, mas o exercício implicava deixá-lo apenas com a linha preta. A cor, essa, ficaria para colocar depois, com a influência de vida franciscana...

Em Assis há muitas imagens de São Francisco por todo o lado. Esta, para mim a mais bonita de todas, a mais humana e cativante, curiosamente, não se encontra em lado nenhum.


Todos os retiros de diários gráficos são especiais, mas este em Assis foi verdadeiramente inigualável.
Venha o próximo!

quinta-feira, junho 15, 2017

Assis: São Rufino, Santa Clara e São Francisco

Existem três grandes templos em Assis: a catedral e duas basílicas. A catedral de São Rufino é a mais antiga e com um peso histórico significativo. Foi lá que S. Francisco e Santa Clara foram baptizados. Foi também lá que Clara descobriu a sua vocação religiosa, depois de ouvir um discurso de Francisco.


Em cima, à esquerda, a catedral de São Rufino. À direita, a basílica de Santa Clara. 
Em baixo, a basílica de São Francisco, património UNESCO.


Esta história dos três templos põe-me a pensar: na minha vida e história pessoal, o que será que marca as opções que faço hoje? Será que as integro tão bem como estas duas basílicas que parecem mergulhar e fundir-se na paisagem?

Só sabendo onde estão os alicerces se torna possível aventurar-me por paisagens desconhecidas. E que aventura...

domingo, junho 11, 2017

Assis: a regra franciscana


Criamos regras para nos organizarmos, mas há sempre quem prefira furá-las.
A regra franciscana é fortíssima. Têm o voto de pobreza mais radical.

Neste exercício, tentámos compreender como as regras são difíceis de cumprir, mesmo quando são claras. 
O trabalho do arquitecto Alejandro Aravena serviu também de inspiração.
Cada um devia começar com uma mancha de cor e uma área especifica ocupada. Os outros deviam seguir a regra. Eu fiz aquele laranja em cima do lado esquerdo. A quarta pessoa a reproduzir a regra, quebrou-a.
Depois, o desafio era (como é sempre), tentar unir os cacos.

É assim a nossa sociedade: tenta, tenta e tenta, mas nós somos mesmo únicos e irrepetíveis. 
A regra ajuda-nos também a entender isso.

quinta-feira, junho 08, 2017

Assis: casa franciscana


Da casa das irmãs franciscanas onde dormíamos, todas as vistas eram bonitas. Esta, da varanda da cozinha, foi-nos oferecida por elas, depois de verem os nossos cadernos. 

Claro que o desenho não mostra a beleza do lugar, claro que não, mas isso não interessa nada. É como os actos. Nem sempre mostram a beleza da sua motivação.


Mas se da varanda se via a paisagem e outras varandas do casario que mostram a vida quotidiana de quem lá vive, no rés do chão, havia a capela mais antiga de Assis: a Chiesetta San Giacomo de Muro Rupto, datada de 1088. 
Uma nave central com um transepto que mostra a antiga muralha da cidade (do lado esquerdo) e a capela das irmãs, do lado direito. A luz que entrava pelo vitral do altar mor era tão intensa que até doía.

Mais uma vez o desenho ficou aquém.
Ficamos sempre aquém, mesmo quando nos aproximamos muito.
Esse toque desejável leva-nos sempre a avançar, e é quando se avança que se percebe que se estava ainda com caminho por fazer...

domingo, junho 04, 2017

Assis: Chiesa Nuova


Hoje é dia de Pentecostes, mas publico um desenho do domingo de Ramos, o que antecede a semana santa e culmina com a condenação à morte e crucifixação de Jesus.

Esta Chiesa Nuova de Assis foi construída sobre a casa dos pais de São Francisco. Foi algures daqui que Francisco começou a atirar os panos valiosos do pai pela janela, oferecendo-os aos pobres. Depois disso, o pai tomou-o como louco e prendeu-o num pequeno cúbiculo dentro de casa. A mãe, com pena do filho (quem não teria?), soltou-o numa das viagens do pai a França para comprar mais tecidos.

Não vou agora debruçar-me sobre o exercício criado no retiro para esta manhã, mas o desafio era como mostrar a simplicidade de algo complexo. Temos tendência para complicar tudo, até as coisas simples, mas há pessoas que conseguem o oposto: simplificar até o mais difícil de entender.

sexta-feira, junho 02, 2017

Assis: Basílica de S. Francisco


Não sei se é do final do ano letivo e se ando demasiado cansado, mas cada vez me questiono mais sobre a impossibilidade de partilhar conhecimento com quem não o quer receber. Parece-me que este sistema de querer ensinar coisas a quem não as quer aprender está em falência...

Dou-me conta que a verdadeira passagem de conhecimento é informal. Mesmo numa aula séria, é a informalidade da curiosidade genuina de alunos e professores que permite que se aprenda.

Enquanto desenhava a Basílica inferior de São Francisco, pensava nas corporativas artísticas medievais e no modo como os aprendizes se juntavam aos mestres logo a partir de muito cedo, 10 ou 11 anos. Seria difícil ensinar-lhes naquele tempo?


Desci à cripta de São Francisco. 
Deambulei. 
Li tudo o que havia para ler.
Deixei-me impressionar pela esmagadora presença daquele túmulo de pedra.
Sentei-me sem fazer nada.
Depois tirei o caderno e comecei a desenhar.
Usei umas aguarelas novas que tinha partilhado com toda a gente. 
Fiquei com estas cores vermelhas. 
Quando se partilha assume-se isso mesmo e fica-se com o que sobra. 
Se é que sobra alguma coisa quando se partilha...


Pois ser professor é isto mesmo: ficar uma manta de retalhos sem nunca perder o conjunto.
Muito impressionante o hábito de S. Francisco. 
Ele foi um excelente professor porque deu o exemplo de como viver.
Foi bem radical, mas isto não vai lá com falinhas mansas. Há que acreditar no que se diz, e transformar isso em ações.


Anda turva a minha visão sobre a vida de professor.
Quanto mais me esforço, mais sinto que estou longe daquilo que deveria ser.
Dou o meu melhor. E mesmo assim nunca chega...

Abençoado fresco do Giotto, que me ajuda a entender que, às vezes, só um pequeno gesto pode aproximar dois mundos que teimam mostrar-se separados.