quinta-feira, junho 16, 2016

Alvaro Siza meeting at lunch

Dia 5
(2ª parte)


Não estava a ser fácil estar perto do Siza. Todos queriam estar com ele, falar com ele, tirar fotografias ou pedir-lhe autógrafos, o que não dava espaço para mais ninguém. Como não sou metediço, olhava, de longe, tudo a acontecer sem me intrometer...
Havia a ideia de passarmos algum tempo juntos a desenhar e a falar de desenho. Falámos disso com o diretor geral das Artes. Que bom seria termos tido essa oportunidade: 4 urban sketchers a falar de desenho em cadernos com o Álvaro Siza Vieira. Mas não foi possível. Não havia tempo nem tranquilidade para o fazermos. Ao perceber isso, decidi desenhá-lo fosse de que maneira fosse. Primeiro de longe, enquanto ele estava sentado à espera que um fotojornalista italiano fizesse a chapa. Acontecia tudo tão rápido que optei por deixar assim esta página, com ele a olhar para fora do caderno...

Depois veio a hora do almoço e todos os lugares à sombra ficaram ocupados!

@ DGArtes

Almocei tranquilamente e sem pressas de voltar ao desenho. Bebi dois copos de vinho a acompanhar a pasta italiana e terminei a pedir uma garrafa de água. Levantei-me depois e deambulei à procura do local para desenhar. Nada. Andei para trás e para a frente a tentar encontrar o ponto de vista certo que mostrasse a animação da Tavolata, mas não estava a conseguir...
A meio caminho, decidi sentar-me num dos lugares à sombra que já estava vazio. Nesse instante, levantou-se o Siza do outro lado da mesa e começou a caminhar na minha direção. Vou desenhá-lo outra vez - pensei. Por sorte, alguém foi conversar com ele, o que me deu tempo para abrir o caderno. Assim que comecei a desenhar, ele olhou logo para mim. Deixou de conversar com a pessoa com quem estava e veio ter comigo. Sentou-se e ficou a ver-me desenhar. Passado uns segundos disse: você desenha bem...
A partir desse momento era inevitável mostrar-lhe o meu caderno e todos os outros desenhos feitos até então.

@ DGArtes


As interrupções eram constantes. Apareceu um casal que vive na Bonjour Tristesse, um arquitecto italiano que tinha sido um dos primeiros alunos Erasmos do Siza no Porto, várias pessoas a pedir autógrafos, o jornalista da Sic com a Cândida Pinto a querer fazer uma notícia e mais não sei quantas pessoas... foi um frenesim...


Quando as pessoas apareciam, eu voltava às páginas onde estava e continua os desenhos dele. Tudo muito rápido e ele sempre a mudar de posição...
O rapaz de óculos escuros que estava com ele (e que não sei mesmo quem é) disse-me entretanto:
- Você não pode pedir ao Siza para autografar no seu caderno.
- Pois... - respondi intrigado...
- É que há uns anos já tivemos um problema com uma pessoa que fez um desenho e pediu ao Siza um autógrafo. Ele claro que assinou, com generosidade, mas a pessoa depois vendeu o desenho como se fosse um original do Siza. Foi um problema.
- A sério?!? - não queria acreditar.
- Sim. Parece mentira, mas é verdade.
- Gostava de ter um autógrafo dele, mas posso pedir para ele assinar nos flyers da exposição...
Entretanto o Siza é completamente desviado para uma filmagem da Sic e a minha conversa com ele termina abruptamente. Faço mais um desenho sentado, mas o autógrafo não chegou a ser feito...


Enquanto ele dava a entrevista, tentei desenhar o ambiente da Tavolata, mas não fiquei contente com o resultado. Voltei a sentar-me à mesa e perguntei se podia desenhar a senhora que estava ao meu lado. Não percebeu o que perguntei e respondeu-me que não podia desenhar, que não queria. Reiterei que queria ser eu a desenhá-la e, então, deixou. Perguntou-me antes quanto tempo ia demorar. Dez a quinze minutos, respondi eu. Tudo bem, ordem para avançar.
Enquanto fazia o desenho, foram vários os sorrisos dela e percebi que estava a ficar contente com o resultado.
- De pernas para o ar parece sempre bem - alertei eu, prevenindo eventuais desapontamentos no final.
Quando virei o caderno ela gostou tanto que me pediu autorização para tirar uma fotografia. 
- Claro que sim! Pode escrever o seu nome perto do desenho?
Ela olhou para mim com um ar de espanto e disse com sotaque alemão: 
- Brigitte Fleck!
- Sim, mas pode escrever? - respondi atrapalhado por lhe ter perguntado o nome e ter ficado com a sensação que devia saber quem ela era...
Feita a investigação em casa, trata-se realmente de uma pessoa muito importante na promoção da obra do Siza em livro e sua internacionalização. Sempre a aprender Mário, sempre a aprender. E que honra tê-la desenhado também, ainda que quase sem querer...

@ DGArtes

5 comentários:

Miguel Antunes disse...

Post épico mário!

Que honra teres estado à conversa com o Siza! Um dia também tive um pouco o privilégio de estar com ele numa sala onde se-lhe fez uma homenagem e com concerto do Pedro Abrunhosa. algo raro, fenomenal!

Mas também não consegui qualquer autógrafo...

Numa foto há uns tempos vi o tal rapaz de óculos escuros. Não sei o nome dele, mas sei que foi aluno e trabalhou com o Siza e no projecto da reabilitação da Casa de Chá da Boa Nova.
Foi ele que fez a visita guiada no ano passado durante a Open House a toda a Casa de Chá e durante 2 horas nos guiou em todos os detalhes da obra.
Um tipo à maneira!

Na altura publiquei no meu blogue os desenhos :http://migelsketcher.blogspot.pt/search?q=boa+nova

Grande abraço mário e venham mais posts!

Pedro disse...

É assim mesmo!
Oportunidades bem aproveitadas. Desenhos e história excelentes.

Mário Linhares disse...

Obrigado aos dois.
Amanhã publico mais um deste dia.
Estão a acabar os desenhos de Veneza...

teresa ruivo disse...

Um dia em cheio Mário! Que bom teres coisas tão, tão boas para lhe mostrar:)

nelson paciencia disse...

Extraordinário post Mário!