quinta-feira, janeiro 15, 2009

Fotografia: Guiné-Bissau | Photography: Guinea-Bissau


Como nos levantávamos muito cedo, habitualmente costumávamos dormir um pouco depois de almoço. Na primeira semana foi impossível para mim não fazer a sesta. A humidade era tanta que não aguentava os olhos abertos...
... com o passar dos dias fui-me habituando ao clima e aos horários e, em vez de dormir a sesta, dedicava o início da tarde para ir visitar pessoas. Era durante essas tardes que desenhava as crianças, que visitava alguns doentes no hospital, ou apenas e simplesmente, sentava-me a falar com as pessoas no varandim das suas casas.

Um dia, decidi ir visitar a família da Safi. Quando lá cheguei constatei que elas tinham ido trabalhar na horta e só estavam em casa a Fámata e a Aissato. A Fámata deve ter uns 11 ou 12 anos e a Aissato, talvez 2 ou 3. Sentada num banco de madeira a Fámata a segurava ao colo a Aissato que estava doente. Tinha tosse e ardia em febre. Quando as vi percebi logo que algo não estava bem e a sensação de impotência foi tão grande que nem sabia bem como reagir. Percebi que a Fámata estava cansada e peguei ao colo a Aissato até que chegasse o resto da família...
... ter nas mãos um ser tão pequeno e belo (como a fotografia demonstra) e ao mesmo tempo tão frágil foi algo que nunca esquecerei. Ela dormia profundamente nos meus braços e o meu pensamento afligia-me constantemente com a seguinte frase: "porque não foste para medicina?"

Sinto que se fosse médico poderia ser muito mais útil à humanidade... é uma sensação que tenho desde há muito tempo e acho que ainda não lido bem com ela...

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As we got up really early in the morning, we usually slept for a while after lunch. During the first week, it was impossible for me not to take a nap. The amount of humidity was such that I just couldn't keep my eyes open…

… as the days went by, I got used to the weather and the schedules so, instead of sleeping, I would spend my early afternoons visiting people. It was during that time that I would draw the children, visit some ill people in the hospital or just simply sat and talk to people on their porches.

One day I decided to visit Safi's family. When I got there, I noticed they had gone working in the kitchen garden and only Fámata and Aissato were home. Fámata must be around 11 or 12 years old and Aissato about 2 or 3 years old. Sitting on a wood stool, Fámata was holding Aissato, who was ill, coughing and burning with fever. When I saw the both of them, I immediately realized that something was not right and the feeling of powerlessness was so immense I just didn't know how to react. I noticed Fámata was tired so I held Aissato until the rest of the family came…

… having such a small and beautiful (as shown in the picture) and at the same time fragile being in my hands was something I will never forget. She was soundly asleep in my arms and my mind was constantly troubling me with the question "why didn't you study Medicine instead?"

I feel like if I was a doctor, I could be much more useful to mankind… it's a feeling I've been having forever and I think I still don't know how to deal with it.

5 comentários:

Rita disse...

já me lembro... mostraste algumas fotos na aula e lembro-me desta cara, sobretudo destes olhos brilhantes do tamanho do mundo!

linda... a expressão dela (em todas as fotos que vi) deixava transparecer alegria e vida (e já agora alegria de viver) como nunca tinha visto...

:) *

Patrícia disse...

Já tinha saudades deste sorriso...
Boa ideia o bilingue :)

cristiana disse...

Que foto bonita. Se alguma vez alguem a olhar para aqui diz que a Aissato se encontra doente. Que ser magnifico e forte.

É encantor o seu sorriso e os seus olhos brilhando.

E tenho a dizer lhe q a sua ultima frase é muita bonita (quando pensa porque nao foi para medicina) e que me deixa a reflectir acerca do que é seguir certas realidades de tão perto. Certamente será muito angustiante vermo-nos perante uma situação em que não podemos intervir de modo a proporcionar uma solução. No entanto, pela foto diria que conseguiu um grande feito, fazer com que a Aissato sorrisse. Será q um médico conseguiria?! :D

ketta disse...

Ao ver esta fotografia, lembrei-me da primeira vez que conhecia a Aissato. Pensei que fosse a Fámata, a filha de da Safi que morreu há 5 anos atrás… tinha o mesmo olhar e o mesmo sorriso…

Acompanhei todo o processo da doença da Fámata no Centro de Recuperação Nutricional (CRN): ela estava com malária… desde a primeira vez que apareceu no CRN que teve sempre tendências a piorar até ao dia que apareceu com a cara completamente inchada.
A partir desse dia a Safi passava mais tempo connosco do que em casa… por vezes aparecia no meio da tarde ou da noite a pedir medicamentos, pois se não era a Fámata que tinha problemas eram os outros filhos…
E dia após dia no CRN fez com que o rosto da Fámata voltasse ao seu estado normal.

Quando em Agosto de 2003 deixei Empada pela primeira vez, a Fámata estava bem da saúde. Só em Agosto de 2008 é que soube que 3 meses depois de ter saído da Guiné-Bissau ela tinha morrido. A malária tinha voltado a atacar a Fámata e Safi não tinha mais dinheiro para cuidar da filha…

O problema da Aissato é a má-nutrição, o que leva a baixar as suas defesas e a ficar doente facilmente.
Uma vez a Safi apareceu no CRN com a Aissato a chorar… durante a noite um bicho tinha entrado dentro do dedo da criança… a Aissato estava com um choro tão forte que já nem tinha lágrimas, só soluços agudos… tinha passado a noite toda a chorar. O bicho só saiu quando a Safi aproximou o fogo ao dedo, porém, estava com uma infecção tão grande que lhe deixou a mão toda inchada.
A Irmã Franca reencaminhou as duas para o Hospital com um recado ao Dr. Humberto (médio do Hospital de Empada) a dizer que era urgente. Depois de analisar a Aissato passou-lhe alguns medicamentos. Safi regressou ao CRN e disse-nos que não tinha dinheiro para comparar os medicamentos…

Quando isso aconteceu, a minha memória regressou para Agosto de 2003… a história ainda era a mesma… e, mais uma vez, perante o mesmo olhar e o mesmo sorriso…

Amnistisiados disse...

O importante é ajudarmos... Não é preciso ser-se médico para se ser útil à Humanidade (se bem que estes são imprescindíveis). Cada um pode fazer algo pelos outros, independentemente da sua profissão. Todos podem ajudar, cada um à sua maneira...