sábado, junho 04, 2016

Wax Print - batik



A letra W do Alfabeto Lisboeta está dedicada a uma técnica que aprendemos na Indonésia.
São três sessões divididas na preparação do desenho, colocação da cera e, finalmente, impregnação da cor.
A logística é complexa, mas os materiais são de luxo: vieram de propósito de Jakarta.

Estamos a pensar fazer este workshop mais uma vez, para aqueles que não se inscreveram no Alfabeto, mas querem aprender.
Para já, fica este vídeo e algumas fotografias do ano passado com o trabalho da Ketta.





Lisistrata

Dia 2 
(2ª parte)


No dia anterior, no percurso pelo interior da Giudecca, encontrámos este cartaz a promover uma performance de actores ao improviso sobre a obra de Aristofane, Lisistrata.
- Devíamos ir. Ainda por cima é gratuita! 
- Sim, temos de perguntar onde fica o Centro Cultural.
Fotografámos o cartaz para não nos esquecermos.


A sala era pequena e tinha, sobretudo, amigos e familiares na plateia.
A peça começou com o narrador acompanhado pelo som da harpa.

A história baseia-se na importância do papel da mulher: enquanto os homens não terminassem a guerra, elas recusavam-se a fazer amor com eles. 
E conseguiram!


Este segundo dia terminou com um jantar à beira mar, com vista para Veneza, a fazer desenhos enquanto esperávamos por três pizzas maravilhosas.

No dia seguinte chegava a Simonetta. Começavam também as montagens exteriores do pavilhão português para a Bienal. Havia que descansar bem para estarmos frescos para desenhar no dia seguinte, mas esta noite revelou-se difícil... quando o despertador tocou de manhã, o Zé disse com voz bem alta: 
- Epá, eu não dormi!
Não sei se foi da pizza ou do vinho, mas eu também não dormi nada bem nesta noite...

quinta-feira, junho 02, 2016

Where Alvaro meets Aldo

Dia 2 
(1ª parte)


Era domingo e o objectivo era darmos um workshop de diários gráficos para as pessoas de lá.
- O que é que vamos fazer? Perguntavam-me a Benedetta e o Zé. 
- Vamos divertir-nos e tentar ajudar os outros a perceberem como é bom desenhar o que nos rodeia.

Apareceram muito mais pessoas do que imaginávamos. Entregámos os cadernos e os lápis de cor. Lançou-se o desafio: entrever o edifício do Alvaro Siza através dos outros e desenhar isso mesmo.


Depois de almoço fomos para o cais. A proposta era desenhar pequeno a vista da Giudecca e de Veneza e depois adicionar elementos por cima numa escala maior.

Uma das surpresas do workshop foi a presença de família da Ketta. Tios e uma prima: o Vittorio, a Esmeralda e a filha Speranza estão a viver em Veneza e apareceram. A Speranza é uma menina muito dotada e cheia de talento, apesar de ainda ser muito nova. Aprende como uma esponja, ouviu tudo o que lhe disse com atenção, fala inglês, italiano, espanhol e percebe português. Desenhou que se fartou. É muito bom poder ensinar a quem está disposto a aprender!

À noite, fomos os três jantar a casa deles (linda a casa!) e ainda nos brindou com uma pequena actuação de clarinete. Bebemos 3 garrafas de vinho, conversámos tanto, tanto, tanto que só houve tempo para a desenhar a tocar.

Caminhámos depois dos Giardini depois até ao Campo S. Maurizio e vínhamos os três bem alegres! Brindámos, claro, à amizade, aos desenhos, a Veneza.

quarta-feira, junho 01, 2016

Giudecca

Dia 1 
(3ª parte)


No Campo del Santissimo Redentore fica a igreja homónima, mandada construir no séc. XVI para honrar uma promessa feita durante uma praga que assolou a Sereníssima. A obra é assinada pelo famoso Andrea Palladio. Entrámos e deslumbrámo-nos com o interior, que está cheio de obras do Veronese, Tintoretto e Bassano...
Disse-nos mais tarde a Simonetta que se faz uma procissão muito importante em Veneza a partir deste pequeno cais: juntam-se vários barcos a servir de ponte entre esta margem e a outra (é bem longe), para que a procissão possa passar e ligar esta Chiesa del Santissimo Redentore à Chiesa Santa Maria del Rosario (Gesuati).
Realmente, Veneza é outro mundo...

O Zé sentou-se na escadaria e eu fui desenhar para junto da margem.


Entrámos depois para dentro da Giudecca, à descoberta da vida de bairro, já mais ao final do dia, até encontrarmos outros projectos brilhantes de renovação arquitectónica e, sobretudo, uma praça com um restaurante cheio de famílias italianas: era o Campo Junghans.
- Vamos comer aqui.
E assim foi. Naquele momento, tirando três senhoras inglesas de idade respeitosa, eu e o Zé éramos os únicos não italianos naquele lugar. Por momentos parecia que se estava no interior de Itália, em local nada turístico, longe das massas. Fizemos o pedido e, enquanto esperávamos, desenhámos livremente...

Chegámos a casa tarde, alegres e muito cansados. 
Tinha acabado o primeiro dia.

terça-feira, maio 31, 2016

Projectos


Domingo passado fui levar à loja da Fnac de Cascais duas serigrafias da panorâmica de Lisboa vista do Aqueduto de Águas Livres de Campolide. Assim emolduradas parecem tão profissionais...

Lembro-me bem do dia em que este desenho foi feito. Num sábado dedicado inteiramente a desenhos para o livro de Lisboa. Pelas 19h30, estava marcado um jantar em Campo de Ourique com o Richard Câmara e a malta dos desenhos. Tinha o Zé Louro à minha frente e ele perguntou-me como é que estava a correr. Respondi que esse dia tinha corrido bem...
Mal sabia eu que um ano depois estaria com uma série limitada de serigrafias emolduradas à venda na Fnac!

Dia 13 de junho vou estar, novamente, na Feira do Livro de Lisboa, da parte da tarde, a autografar livros. A editora utilizou o meu desenho do miradouro de S. Pedro de Alcântara (aquele que deu origem à capa do livro de Lisboa) para forrar a banca. Sou suspeito, mas acho que ficou fantástico!


Veneza vista da Giudecca

Dia 1 
(2ª parte)


Saindo pela Calle Michelangelo chegava-se à estação fluvial Zitelle e a vista era esta...
Sentei-me no final do passeio, com as pernas a cair para a água e não resisti mais. Com a Giudecca nas costas foquei-me nos campanários da Chiesa di Santa Maria del Rosario (Gesuati) e comecei por aí o desenho. Deixei a caneta passear fluentemente pela página e, das torres passei para a cúpula (adoro que se diga duomo em italiano), depois para os telhados do lado direito, pontos para as janelas, até chegar à torre da Piazza S. Marco. O palácio dos Doges ficava ali logo à direita e, olhando de novo para o desenho, sentia falta de algo à esquerda. Parecia-me demasiado vazio... 
Entretanto começa a vibrar o telefone. Era o Zé a chamar:
- Sim? (os italianos respondem pronto!? quando atendem o telemóvel - lindo!)
- Onde é que andas?
- Estou junto à água, a desenhar.
- Mas junto à água onde? Para que lado? Como é que se vai aí ter?
- Estou mesmo junto à estação Zitelle. Faz o caminho de volta. Não tem nada que enganar.
- Epá, não sei se consigo ir aí ter.
- Bolas Zé, é só fazer o caminho de volta!
- Ok, ok, vou tentar.

Ora aqui estava algo que desconhecia do Zé Louro: falta de orientação geográfica. Eu estava a uns 100 metros dele, separados por uma rua direita, mas ele achava que se ia perder!!
Chegou, finalmente, a olhar para todo o lado menos para onde eu estava, acenei-lhe e lá nos encontrámos!
No entretanto tive tempo de fazer um pouco mais de desenho à esquerda da cúpula.

Fomos depois um pouco mais para a direita, sentámo-nos no chão para desenhar e lembrei-me da ordem da Ketta: faz um em folhas soltas para pendurarmos cá em casa.
Tirei as folhas de 220 gr, o pau de madeira e a tinta da china e lancei-me à mesma vista.


Já está a ser emoldurado.
Sábado passado fui levantar duas serigrafias com moldura para ficarem à venda na Fnac (sim, a loja de Cascais está a vender as minhas serigrafias de Lisboa) e aproveitámos para levar estas duas folhas A3 de papel com 220 gr. Agora já é possível viajar até Veneza nas paredes da nossa casa...

domingo, maio 29, 2016

Veneza: Giudecca de Siza Vieira

Dia 0
Aterrámos em Veneza a 20 de maio à noite. Não fiz desenhos no avião. De alguma forma, parecia que me estava a poupar para o desgaste imenso que estava para vir...



Dia 1
(1ª parte)

Logo de manhã, fomos à estação fluvial do Rialto para a Benedetta pedir um recibo do passe de 6 dias de Vaporetto, pois havia que justificar todas as despesas.

Tudo em Veneza nos prende o olhar. Dizia o Zé Louro: "isto é cada tiro, cada melro". E respondia eu: "é que nem é preciso disparar, basta apontar". É cada canto, cada esquina, cada janela. Dá vontade de desenhar tudo, trazer tudo, memorizar tudo...
Enquanto esperávamos pela Benedetta, comecei com pequenos desenhos rápidos. Tudo fugaz, inacabado, como que a tentar guardar a água nas mãos e vê-la a desaparecer entre os dedos...
Ao almoço fiquei em frente à Benedetta e, enquanto o meu spaghetti al denti era preparado, desenhámo-nos um ao outro, pois claro!

Estávamos já na Giudecca, mesmo ao lado do edifício do Siza.


Eu ia muito impressionado com o facto do nosso Siza Vieira ter um projecto em Veneza. Como é que tinha sido possível? Pensava que Veneza era Veneza e não se podia mexer em nada... 
Tive de ir investigar! Parece que foi convidado no início dos anos 80 a entrar num concurso para a zona da Giudecca. Os edifícios que lá estavam tinham sido construídos na altura do Mussolini, de forma temporária, com materiais pobres e espaços de habitação reduzidos. O plano desse concurso era demoli-los e construir novos, proporcionando maior qualidade de vida aos habitantes. Era, portanto, um projecto já com escala de planeamento urbano...
E o Siza ganhou o projecto! Estávamos em '83 e ele fez surpreendeu ainda mais: convidou os outros arquitectos que tinham entrado no concurso a fazer equipa com ele na execução de cada quarteirão.

Com toda esta história, queria que o meu primeiro desenho fosse feito a partir do edifício do Aldo Rossi. Procurei uma vista que funcionasse com o título da exposição e coloquei-me num vão interior com vista para a obra do Siza...


Tinha-me preparado em casa e sabia que esta esquina era muito especial. O último piso tem uma varanda que quebra a aresta vertical do edifício. É um pormenor, mas é daqueles pormenores...


Andei de roda do estaleiro da obra onde está a ser construída a continuação do projecto. Não se via quase nada e tudo à volta parecia lutar com a minha atenção. Tentações imensas, vistas incríveis de janelas, barcos, cúpulas, torres, palácios. Sentia-me um profissional que sabe o que tem de fazer e não se distrai com nada...


Entrando no estaleiro, descobri o caminho utilizado para descarregar entulho e carregar materiais. Tiveram de derrubar o muro do terreno vizinho para que a obra seja feita. Tudo é trazido de barco, o que é mesmo impressionante...
Dali, a meio do caminho, o nome da exposição portuguesa fazia ainda mais sentido: Where Alvaro Meets Aldo. Os dois blocos do Aldo Rossi, com a cobertura curva, faziam um belo contraste com a plana do Siza.
A vontade de entrar nas casas para conhecer as pessoas ia crescendo, mas sentia também que esta abordagem de "fora para dentro" era a mais certa e menos invasiva...

Já se estava a meio da tarde, mas, no que diz respeito a desenhos, o dia ainda ia a meio!

sexta-feira, maio 20, 2016

A caminho de Veneza

É com desenhos de Veneza feitos em 2014 que me preparo para viajar novamente para a Sereníssima!


A 20 de abril de 2014, guiado pelo mote "se achas um tesouro, deixa-te encontrar", fui dar a um dos locais que mais queria desenhar: o campo (praça) onde se encontra a escultura de Bartolomeo Colleoni, feita por Andrea Verrocchio
Tinha estudado nas Belas-Artes a influência que esta escultura teve no nosso grande Machado de Castro quando preparou a de tributo ao D. José I, que está no Terreiro do Paço.
Não sabia onde ficava (normalmente não me preparo como um turista para visitar locais obrigatórios), mas andava atento à procura...
Assim que entrei na praça, percebi logo que algo mágico tinha acontecido: encontrei-a!




O que me leva a Veneza é, talvez, um dos desafios maiores que tive até hoje: desenhar as vidas que habitam a arquitectura social do Siza Vieira em Veneza. Não só isso, como todo o ambiente do Campo di Marte. 
O convite veio do diretor geral das Artes. Levei o meu caderno de 2014 com estes três desenhos que mostram a casa dos Baccichetti e eis que se fez um "clique"!!
Com a possibilidade de convidar mais um português e dois italianos, telefonei ao José Louro (para mim, um dos tops a desenhar em Portugal) e ele alinhou na aventura. De seguida enviei mails para a Simonetta e para a Benedetta. Tutto a posto!

Apanhamos hoje o avião para Veneza.
Domingo vamos dar um workshop gratuito de diários gráficos para os habitantes do bairro em cadernos da Emílio Braga e lápis de cor da Viarco
Nós os quatro desenharemos em cadernos Laloran de formato quadrado em dimensão especial.

Facebook do evento aqui.
Vai começar uma grande aventura!

quinta-feira, maio 19, 2016

Rosto de Cão - S. Roque


Depois desta história e, passados uns dias, já sabia escrever bem o nome da terra.
Era o primeiro domingo depois da Páscoa. 
Dia de regresso a Lisboa.
Último desenho nos Açores com a linha do horizonte bem lá no alto, como quem anseia olhares mais longínquos!

quarta-feira, maio 18, 2016

Miradouro


Lancei-me a desenhar os verdes e ficou um borrão imperceptível.
Que desastre - pensei eu - mas não vou desistir! 
Ao meu lado estava sentado o Matias que, entretido com as canetas, enchia uma dupla página com cores variadas e despreocupadas. Veio entretanto a Luísa e ficou ali a brincar/desenhar com ele enquanto eu fui à procura de outros pontos de vista.

Desenhei a estrutura do miradouro (que parece ter sido antes um moinho de vento) em cima e depois por baixo. Escrevi o nome do miradouro em cima, no espaço em branco que ainda lá estava.

Assim andam as páginas do meu diário gráfico...

terça-feira, maio 17, 2016

segunda-feira, maio 16, 2016

Ponta Delgada


Dou-me conta, vezes sem conta, de que vivemos num tempo muito especial.
Poder desenhar e ensinar desenho é um luxo incomum deste tempo.
Gastar o nosso tempo a observar o que nos rodeia e a registá-lo num caderno é ainda mais especial...


Dizia um monge da idade média: "o silêncio é o mistério do mundo que está para chegar".