domingo, maio 29, 2016

Veneza: Giudecca de Siza Vieira

Dia 0
Aterrámos em Veneza a 20 de maio à noite. Não fiz desenhos no avião. De alguma forma, parecia que me estava a poupar para o desgaste imenso que estava para vir...



Dia 1
(1ª parte)

Logo de manhã, fomos à estação fluvial do Rialto para a Benedetta pedir um recibo do passe de 6 dias de Vaporetto, pois havia que justificar todas as despesas.

Tudo em Veneza nos prende o olhar. Dizia o Zé Louro: "isto é cada tiro, cada melro". E respondia eu: "é que nem é preciso disparar, basta apontar". É cada canto, cada esquina, cada janela. Dá vontade de desenhar tudo, trazer tudo, memorizar tudo...
Enquanto esperávamos pela Benedetta, comecei com pequenos desenhos rápidos. Tudo fugaz, inacabado, como que a tentar guardar a água nas mãos e vê-la a desaparecer entre os dedos...
Ao almoço fiquei em frente à Benedetta e, enquanto o meu spaghetti al denti era preparado, desenhámo-nos um ao outro, pois claro!

Estávamos já na Giudecca, mesmo ao lado do edifício do Siza.


Eu ia muito impressionado com o facto do nosso Siza Vieira ter um projecto em Veneza. Como é que tinha sido possível? Pensava que Veneza era Veneza e não se podia mexer em nada... 
Tive de ir investigar! Parece que foi convidado no início dos anos 80 a entrar num concurso para a zona da Giudecca. Os edifícios que lá estavam tinham sido construídos na altura do Mussolini, de forma temporária, com materiais pobres e espaços de habitação reduzidos. O plano desse concurso era demoli-los e construir novos, proporcionando maior qualidade de vida aos habitantes. Era, portanto, um projecto já com escala de planeamento urbano...
E o Siza ganhou o projecto! Estávamos em '83 e ele fez surpreendeu ainda mais: convidou os outros arquitectos que tinham entrado no concurso a fazer equipa com ele na execução de cada quarteirão.

Com toda esta história, queria que o meu primeiro desenho fosse feito a partir do edifício do Aldo Rossi. Procurei uma vista que funcionasse com o título da exposição e coloquei-me num vão interior com vista para a obra do Siza...


Tinha-me preparado em casa e sabia que esta esquina era muito especial. O último piso tem uma varanda que quebra a aresta vertical do edifício. É um pormenor, mas é daqueles pormenores...


Andei de roda do estaleiro da obra onde está a ser construída a continuação do projecto. Não se via quase nada e tudo à volta parecia lutar com a minha atenção. Tentações imensas, vistas incríveis de janelas, barcos, cúpulas, torres, palácios. Sentia-me um profissional que sabe o que tem de fazer e não se distrai com nada...


Entrando no estaleiro, descobri o caminho utilizado para descarregar entulho e carregar materiais. Tiveram de derrubar o muro do terreno vizinho para que a obra seja feita. Tudo é trazido de barco, o que é mesmo impressionante...
Dali, a meio do caminho, o nome da exposição portuguesa fazia ainda mais sentido: Where Alvaro Meets Aldo. Os dois blocos do Aldo Rossi, com a cobertura curva, faziam um belo contraste com a plana do Siza.
A vontade de entrar nas casas para conhecer as pessoas ia crescendo, mas sentia também que esta abordagem de "fora para dentro" era a mais certa e menos invasiva...

Já se estava a meio da tarde, mas, no que diz respeito a desenhos, o dia ainda ia a meio!

9 comentários:

Rosário disse...

Grande viagem e que desenhos fantásticos!

L.Frasco disse...

Obrigado por nos levares também nesta viagem, com os teus textos e desenhos. Tão teus!

teresa ruivo disse...

Hum...Que bom!Queremos mais :)

nelson paciencia disse...

Extraordinário post Mário!

Ana Crispim disse...

Boa, Mário, espero os seguintes...

cláudia mestre disse...

Achei maravilhosos estes desenhos! Gosto também muito dos textos!

nelson paciencia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mário Linhares disse...

Tenho saudades de desenhar convosco!

Henrique Vogado disse...

Fabulosos desenhos e uma excelente reportagem. A aguar por mais...